#A Ponte.

Uma solitária garota passou um pouco depois das seis da manhã.
Eu havia acabado de acordar, e como de costume, abrir minha janela e lá estava ela, com olhar distante, observando cada pedaçinho da calçada. Ela não tinha um rumo, percebi isso logo de cara. Seus cabelos eram quase brancos, sua pele rosadinha, vestia um vestido azul em detalhes rosa – bebê, pés descalços e com meia de babado, que me lembravam algo. Senti uma enorme vontade de abraçá-la, busquei o motivo em minha memória por alguns instantes, mas não encontrei resposta alguma. Sem pensar, logo desci as escadas de minha casa, abrir a porta e subitamente a puxei pelos braços – ela não gritou, nem sequer disse nada.
A deixei sobre o primeiro degrau da escada,fechei a porta e disse: “Você esta segura agora, meu bem”. Ela, com sua voz doce, começou a cantar uma musica. Aquela melodia não era estranha, tinha certeza de que já havia escutado em algum lugar. Meu subconsciente gritava a letra, mas algo não me permitia cantar junto com a garota, talvez eu não quisesse deixar com que a doce voz dela, deixa-se de ser o único som que os meus ouvidos “degustavam” naquele momento.

Percebi que aquela garota, não era apenas uma criança inocente perdida do braço de sua mãe, isso aconteceu logo após ela cochichar algumas palavras em meu ouvido. Disse-me, de maneira tranqüila e calma, que seu nome era Sofia, e ela só existia na minha mente. Aquilo de certa maneira só serviu para me deixar mais confusa, mas de qualquer maneira era uma resposta. Mas como? Eu conseguia tocá-la, ouvi-la, ela não poderia só estar na minha mente. E o nome Sofia não me era estranho. Subi as escadas, puxando-a lentamente. Por um momento desejei que tudo aquilo não passasse de um sonho.

Ela foi entrando em minha casa, como se a conhecesse. Andou pela sala, passou pelo quarto e entrou. Sentou em minha cama, seus pés não tocavam o chão, balançava-os como uma bonequinha. Vi-me então com uma pequena desconhecida em minha casa. Precisava descobrir mais alguma coisa, um motivo. Perguntei sobre seus pais, sua família, sua cidade, ela não respondia. Apenas repetia uma frase: “Tudo que uma mente precisa, será criada pela mesma. Mesmo que seja através…” e não continuava, era como se ela quisesse que eu terminasse. Mas eu não sabia o que dizer, que palavra poderia ser? Sem respostas as horas foram passando. Tinha um baú antigo em meu quarto, ela não parava de olhá-lo. Aquele baú era a única ponte que eu tinha com meu passado, eram coisas da minha infância. Peguei o baú e coloquei sobre a cama, ela mesma quem abriu. Encontrou, um pequeno chapéu rosa, que o colocou rapidamente sobre a cabeça, aquela era o chapéu de uma boneca que tive ate os seis anos de idade, até ela sumir misteriosamente, deixando apenas aquele chapéu, o guardei entre minhas coisas, até hoje. Olhando para a garota, lembrei de minha infância, resolvi então remexer em algumas lembranças, encontrei uma fotografia. Quando olhei fixamente, para a fotografia e para a garota, senti uma sensação que talvez eu nunca consiga explicar, ela era idêntica a minha boneca desaparecida, os cabelos alvos, o vestido, o chapéu. Aquilo me apavorou, e me deixou em meio a mais duvidas.

Depois insisti para que ela comesse algo, mas ela negou. Então adormeceu sobre minha cama. Rodei pela casa por algumas horas, sem encontrar qualquer resposta. Tentei dormir, deitei do lado de Sofia e adormeci depois de alguns instantes…
Abri meus olhos, já era dia. Um pouco depois das seis, para ser mais exata. Ela não estava mais lá, e era como se nada daquilo tivesse acontecido. Eu ainda sentia o doce perfume dela vagando pelo ar. Mas ela não estava mais lá.
Abrir a janela, era tudo como no dia anterior. Mas a garota não estava mais na rua e nem sobre minha cama. Eu senti uma angustia, e tenho que confessar: um pouco de saudade. Imaginei que fosse um sonho. Fechei a janela e voltei a deitar. Fechei os olhos com muita força desejando poder voltar a sonhar com minha pequena Sofia de novo.

“Tudo que uma mente precisa, será criada pela mesma. Mesmo que seja de alguma forma que não conseguimos explicar”.

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